Uso de Drogas e Prevenção

Escrito por Super User. Publicado em Netpsi Indica

Prólogo

Profª Drª Vera Maria Nigro de Souza Placco*

Quando Marcelo Sodelli me pediu para escrever um prólogo ao seu livro de estréia, derivado de sua tese de doutorado, imaginei uma conversa com ele, sobre o início de nosso trabalho conjunto.

Como foi nosso conhecimento mútuo? O que o levou a se aproximar e se aprofundar não apenas na temática das Drogas, mas, especialmente, escolher a docência como veículo privilegiado, embora não único, para sua participação  acadêmica e social?

Em 1996, voltando de meu pós-doutorado na École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris, trouxe comigo uma proposta de pesquisa sobre Representações Sociais de Alunos do Ensino Fundamental a respeito de AIDS, com o objetivo de, trabalhando em paralelo com uma colega francesa, Elisabeth Lage, daquela instituição, identificar como a AIDS era percebida por jovens.

Constituí, no Programa de Estudos Pós-Graduados e Educação: Psicologia da Educação, um grupo de mestrandos e doutorandos que se interessavam pelo tema – e logo percebi a necessidade de ampliar o âmbito da pesquisa, de modo a incluir também outros temas de importância acadêmica e interesse social: Drogas e Violência. Desde o nascimento do primeiro projeto: “O professor e os problemas atuais dos jovens: Representações Sociais de Adolescentes do Ensino Fundamental sobre AIDS, Drogas e Violência”, pudemos contar com a participação ativa de Marcelo Sodelli, que, naquele momento, realizava seu mestrado na área de AIDS. Sua atitude séria e comprometida, suas intervenções claras e objetivas foram inestimáveis para um grupo que se iniciava nos estudos ainda incipientes de uma problemática envolvente.

            

Posteriormente, desenvolvemos o projeto “Representações Sociais de Professores do Ensino Médio sobre AIDS, Drogas, Violência e Prevenção”, no qual Marcelo, então em seu curso de doutorado, também teve destacada participação.  Ao liderar um dos grupos de coleta de dados, junto aos professores de ensino médio, reafirmou sua posição de pesquisador ético e rigoroso, trazendo real contribuição à pesquisa.

Vale destacar que, paralelamente, Marcelo Sodelli desenvolvia sua tese de Doutorado, sob nossa orientação, “Aproximando sentidos: Formação de Professores, Educação, Drogas e Ações Redutoras de Vulnerabilidade.”, a qual foi concluída com brilhantismo, em 2006. Nesse trabalho, agora transformado em livro, Marcelo mostra sua postura de educador criativo e crítico, trazendo um novo olhar para a questão da prevenção, uma nova perspectiva à questão das vulnerabilidades e apontando uma séria crítica à formação de professores, na medida em que os cursos, em geral, não atendem à necessidade claramente expressa em nossas escolas, em nossas salas de aula – professores melhor preparados para lidar com a prevenção, no sentido lato deste conceito, que envolve o educar o sujeito inteiro para a realidade social em que vive, como forma de preparação para que esses sujeitos possam fazer escolhas mais conscientes e menos danosas.

Marcelo, seu empenho, sua responsabilidade e compromisso com os sujeitos-alunos, com os sujeitos sociais, traduzidos pelo seu trabalho e pela sua vida, culminados agora, provisoriamente, neste livro, terão, com certeza, muitos outros frutos – sucessos e alegrias, em sua vida profissional e pessoal.

PARABÉNS!

*Vera Maria Nigro de Souza Placco – Professora titular e Pesquisadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Prefácio

Sergio Seibel*

Ações Redutoras de Vulnerabilidade: aproximando sentidos entre educação e prevenção ao uso nocivo de drogas.

Bem vindo a este “Ações Redutoras de Vulnerabilidade”. Trata-se da transformação em livro de um alentado estudo acadêmico que culminou na tese de doutorado do Autor no setor de Pós-Graduação em Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo no setor de Pós-Graduação em Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Este belo trabalho inicia contextualizando o modelo proibicionista, iniciado no século XIX por entidades religiosas e moralistas norte-americanas – os movimentos pela temperança, mais tarde expandido às demais substâncias, as assim chamadas drogas ilícitas, como maconha, ópio e derivados e cocaína.

Em seguida, apresenta e traz criticamente, não apenas um questionamento dos diversos modelos de prevenção ao uso de drogas existentes no Brasil, justificando e defendendo um deles, o que o Autor denominou “Prevenção que Convive com as Diferenças”, utilizando-se do conceito de vulnerabilidade e dos pressupostos da estratégia de Redução de Danos relacionados ao consumo de substâncias psicoativas, a partir da compreensão de homem e de mundo através da postura fenomenológico-existencial.

Controvertido e polemico pela natureza própria de suas múltiplas interfaces, aquilo que se convencionou chamar de “prevenção ao uso de drogas” não deixa de ser uma medida de saúde pública, inserido no contexto da educação sanitária que permite alcançar uma extensa população vulnerável a práticas e condutas de risco quanto ao consumo de substâncias psicoativas. E, ao mesmo tempo em que falamos em populações vulneráveis ao consumo de substâncias, estamos nos referindo ao impacto não apenas pessoal das drogas sobre o organismo, mas principalmente das conseqüências sociais por elas provocadas.

Finalmente, se inicia um consistente movimento da produção acadêmica brasileira com preocupações importantes na área da saúde pública, preenchendo uma brecha, qual seja a de dar embasamento teórico-prático aos formuladores de políticas públicas e privadas na área da educação para a saúde, tão necessitada de intervenções pragmáticas e dotadas de racionalidade científica, área ainda tomada por discussões apaixonadas e emocionais, que acabam por servir de caldo de cultura para a disseminação de preconceitos de toda ordem. Este livro constitui leitura útil, obrigatória para professores de todos os cursos que se preocupem não apenas com o que se passa em sala de aula, mas principalmente fora dela, pois trás lições valiosas para ensinarem a seus alunos sobre a possibilidade de se fazer escolhas mais livres e criticamente conscientes.

* Psiquiatra. Pesquisador-associado do Departamento de Medicina Legal, Bioética e Saúde Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Apresentação

E.A. Carlini*

É, para mim, uma imensa satisfação fazer a apresentação deste livro e de seu autor. Primeiramente um pouco sobre ele. Conheci Marcelo Sodelli quando ambos fazíamos parte do Comitê Científico que organizou o I Congresso da ABRAMD (Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas). Foi fácil perceber: idealista, batalhador, perseverante, defendendo seus princípios sem tentar massacrar a opinião alheia; daí o surgimento de uma amizade baseada em respeito mútuo.

O assunto abordado pelo livro não é passível de unanimidade. Sempre haverá opiniões discordantes e mesmo até apostas em relação a qualquer modelo sobre prevenção relativa ao problema que se convencionou chamar de uso de risco e/ou dependência de drogas. Mas, o importante é que estas opiniões (teorias) devem ser expostas publicamente, objeto de discussões, pois, só assim, um dia poder-se a chegar à realidade (ou próximo dela) sobre o tema. E então perceberemos que na verdade existem várias realidades dado à diversidade na cultura das sociedades onde drogas são utilizadas. Como dizia o Prof. José Ribeiro do Valle, talvez o primeiro no Brasil a encarar a maconha sob um foco eminentemente científico: “Estudamos a maconha que o homem usa. Isto é errado! Deveríamos estudar o homem que usa a maconha”.

E o livro de Sodelli neste aspecto, não deixa dúvida: investe pesadamente contra o modelo proibicionista (eu diria a pedagogia do terror) que atualmente esta vestindo uma nova roupagem: “prevenção que convive com as diferenças”, mas que na realidade aponta para um nunca usar drogas. E, ao mesmo tempo, que desconstrói o modelo proibicionista elabora em profundidade sobre um modelo de prevenção, chamando-o de “Ações Redutoras de Vulnerabilidade”, utilizando para isto dos conceitos e ideias do modelo de redução de danos e da noção de vulnerabilidade.

Este livro certamente está fadado a gerar polêmica o que será extremamente salutar para o assunto; alias o próprio autor reconhece que o tema está eivado de preconceitos ideológicos e políticos.

E para mostrar como estes preconceitos podem obnubilar visões mais claras, basta verificar no 2ª Capítulo do Livro que Sodelli cita a opinião de autores que consideram o INCB (International Narcotics Control Board), organismo ligado à ONU, como tendo sido “criado por pressão da política externa norte-americana, com à finalidade de exercer funções “que lembram os tempos da inquisição”. Entretanto, eu tive a honra de ter sido eleito pela comunidade científica mundial para membro titular do INCB, tendo cumprido meu mandato por cinco anos seguidos. E posso afirmar que o INCB não é o que foi afirmado pelos autores citados por Sodelli. Mas por outro lado, mesmo com a emocionalidade ideológica do que foi dito, ainda assim é vantajoso trazer à baila a Convenção Única de Narcóticos de 1961 da ONU, e INCB para uma re-análise. Afinal estes documentos  já têm meio século de existência e o mundo mudou muito de lá para cá.

E assim, devemos bater palmas a este livro. Afinal, todos sabemos que é somente através de discussões abertas, vigorosas e respeitosas que a humanidade progride.

Por esta razão, confesso para terminar, que o livro de Sodelli me fez lembrar Castro Alves.

           

                                   Oh! Bendito o que semeia

                                   Livros... livros à mão cheia...

                                   E manda o povo pensar!

                                   O livro caindo n’alma

                                   É germe – que faz a palma,

                                   É chuva – que faz o mar.     

 

E.A. Carlini

UNIFESP

Janeiro, 2010

*Professor titular de Psicofamarcologia da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP

Para adquirir este livro envie um e-mail para O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. solicitando instruções.